sexta-feira, 13 de abril de 2012

ZÉ DO PAPEL E LAMPIÃO (Archimedes Marques)


Em meados de outubro de 1930 quando o bando de Lampião entrou na
cidade de Aquidabã, em Sergipe, o ínfimo contingente policial fugiu às pressas
deixando as pessoas totalmente desprotegidas e nas garras dos cangaceiros.
Aquele era o retrato da força policial sergipana do governador Eronildes de
Carvalho, filho de Antônio Caixeiro, sem dúvidas, dos maiores coiteiros que
o famigerado Lampião teve na sua vida bandida por cerca de 20 anos no
nordeste brasileiro.

Jose Custódio de Oliveira, o Zé do Papel, em virtude de ser uma pessoa
aparentemente de classe privilegiada, de classe média para rica, um pecuarista
e proprietário da Fazenda Pai Joaquim, fora abordado por Lampião e dentro da
sua residência na cidade de Aquidabã, além de certa quantidade de dinheiro,
fora encontrado dez balas de fuzil em uma cômoda, sendo daí interpelado
para contar onde estava a arma, pois pela lógica, havendo munição haveria
a consequente arma, oportunidade em que o trêmulo cidadão afirmou ter
emprestado o mosquetão para o juiz de direito daquela comarca, Dr. Juarez
Figueiredo.

Tal fato, provavelmente incutiu na mente de Lampião que a arma fora passada
ao juiz, justamente para que ele se defendesse do seu bando, daí, enraivecido
com o fato, o chefe do cangaço, irracional e impiedosamente arrastou Zé do
Papel ruas acima e em frente a um armazém próximo da praça principal da
cidade decepou à golpe de faca a sua orelha, depois do bando ter praticado
saques no comércio local e tantos outros crimes de torturas contra pessoas
amedrontadas, dentre os quais o assassinato de um débil mental de nome
Souza de Manoel do Norte, mais conhecido por Abestalhado, que se fez
de corajoso na sua insanidade sacando um pequeno canivete com o qual
cortava fumo de corda para fazer seu cigarro de palha e com tal arma teria
desafiado os cangaceiros. Diante do fato, o sanguinário Zé Baiano partiu em
verdadeira fúria contra o pobre do doido ceifando a sua vida a golpes do seu
longo e afilhadismo punhal de 70 centímetros, em luta totalmente desigual de
um ínfimo canivete em mãos de um doente mental contra um longo punhal
em mãos de um feroz e impiedoso cangaceiro. Não satisfeito com o bárbaro
assassinato, Zé Baiano abriu a barriga da pobre vítima para retirar gordura
e untar as suas armas de fogo. Tal pratica era useira e vezeira quando os
cangaceiros eliminavam as suas vítimas e queriam impressionar a população
para serem mais respeitados ainda do que já eram.

Consta que Zé do Papel na agonia de sentir o sangue escorrendo pescoço
abaixo ainda foi obrigado a beber um litro de cachaça que ao mesmo tempo
era usada para estancar o seu ferimento e aliviar a sua dor. Em meio a esse
místico de humilhação, crueldade, sangue e cachaça o endiabrado cangaceiro
Zé Baiano pegou o roceiro Eduardo Melo e após espancá-lo com o coice do
seu fuzil, também cortou a sua orelha seguindo o exemplo do seu chefe. Zé do
Papel ainda viveu por muito tempo e viu o cangaço se acabar e seu carrasco
morrer, entretanto, o Eduardo Melo não teve a mesma sorte e faleceu cerca de
um mês depois da perversidade sofrida.

Assim, Aquidabã viveu o maior dia de terror da sua história. Assim Aquidabã
fora vítima das atrocidades dos cangaceiros e para sempre pelos seus
sucessores moradores aquele dia será lembrado. Assim, Aquidabã fora vítima
também do próprio Estado que deveria ser o protetor do povo, mas que estava
ausente. Ausente pela covardia dos seus policiais que fugiram mato adentro
sem esboçarem reação alguma. Ausente pela pouca ou nenhuma vontade
política de verdadeiramente se combater o cangaço nas nossas terras.

De tudo isso, por incrível que pareça, a Justiça de Aquidabã, sequer abriu
Processo Criminal contra Lampião e seu bando. Teria o juiz Juarez Figueiredo,
o mesmo que estava com o fuzil emprestado de Zé do Papel, responsável
indireto pela decepação da sua orelha se acovardado para não providenciar
qualquer procedimento judicial contra Lampião?...

Por outro lado, em igual modo de impunidade falando, dizem – e a história de
certo modo comprova – que a polícia de Sergipe era uma polícia de “faz de
conta”: Fazia de conta que caçava Lampião, e, Lampião por sua vez, fazia de
conta que era caçado.

(Delegado de Policia Civil no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão
Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe)
archimedes-marques@bol.com.br

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